KAPOW! Batman - 2008 acaba de ficar mais triste
Rodolfo Bruno Braz
(25 07 2008 - 10:01:33)

Com certeza você não sente mais falta da KAPOW!, que agora virou blog (clique aqui e acesse). Mas o diretor da revista SET, Roberto Sadovski, ainda é amigo do pessoal da redação do Herói. E crítica de fã de quadrinhos tem que entrar no ar. Abaixo, você confere a resenha assinada por Sadovski. E, lógico, o Especial Batman que promove o lançamento do filme Batman - O Cavaleiro das Trevas está chegando ao seu fim. Já viu o que publicamos? Se não, clique aqui e acesse o hot site.

Chega de lenga-lenga. Eis a coisa boa logo abaixo.

KAPOW! Batman - 2008 acaba de ficar mais triste
Por Roberto Sadovski

Não, minto. 2008 nos cinemas tornou-se menos interessante. Sério. Batman - O Cavaleiro das Trevas é, sim, tudo aquilo que a gente andou lendo por aí nas últimas semanas. Peraí, correção de novo: é mais. É um filme que merece as hipérboles que andou colecionando, as comparações com O Poderoso Chefão II, Fogo Contra Fogo, À Beira do Abismo. Merece também adjetivos como “maravilhoso, espetacular, perfeito”. É uma expectativa quase impossível para qualquer filme seguir e/ou superar, mas o novo torpedo de Christopher Nolan acerta. Em todos os alvos. E o principal motivo para tanto foi justamente não ser um “filme de super-heróis”.

Então, caríssimos, não é em Kapow! que você vai ler que O Cavaleiro das Trevas é “o melhor filme de super-heróis da história” ou “a melhor adaptação de quadrinhos de todos os tempos”, simplesmente por ele não estar nessa categoria. Na falta de um “gênero” mais abrangente, o filme é um drama policial, pontuado por mortes, violência, investigação criminal, corrupção, drogas e vigilantismo - embalado numa estética moderna e nunca menos que espetacular (é notório o salto da qualidade da fotografia de Wally Pfister), que deixaria Howard Hawks ou John Huston orgulhosos. É o filme que Martin Scorsese não teria problemas em colocar ao lado de pérolas como Táxi Driver, é o amadurecimento do filme policial moderno, que teve seu pontapé inicial pop com Fogo Contra Fogo, de Michael Mann. E é, em seu cerne, a jornada de um homem incorruptível que cede ante a loucura de uma cidade.

Seu nome é Harvey Dent

Desde que Batman - O Cavaleiro das Trevas deixou de ser apenas uma idéia, Christopher Nolan deixou claro que o filme não só seguiria o gancho do final de Batman Begins, com o tenente Gordon entregando uma carta de baralho do Coringa para o Batman, como também ele não tinha o menor interesse em explorar a gênese do Palhaço do Crime. “Anarquia” é a palavra-síntese do personagem interpretado por Heath Ledger (encontrado morto em 22 de janeiro), que encontra uma Gotham City com seu submundo apavorado com a presença do Batman e propõe, sem muito rodeio, matar o herói. Ao mesmo tempo, Bruce Wayne (Christian Bale) começa a questionar seu papel como símbolo da esperança numa cidade apodrecida e passa a enxergar esse papel em Dent (Aaron Eckhart), recém-eleito promotor público e força incorruptível na caçada aos mafiosos de Gotham, que aos poucos percebem que seu tempo é coisa do passado. É a jornada de Harvey, sua cruzada moral e o modo como o Batman e o Coringa o empurram ou para a luz ou para a escuridão que se desenvolve a trama do filme. Mas não fica por aí - isso na verdade é resvalar na superfície!

Batman - O Cavaleiro das Trevas traz tantas tramas paralelas que é preciso atenção redobrada para perceber quais engrenagens estão em movimento. Sem falar que é um filme em que todos os personagens recebem atenção especial do roteiro (escrito por Chris Nolan e seu irmão, Johnathan, a partir de uma idéia do diretor e de David S. Goyer, que trabalhou no texto de Batman Begins). Jim Gordon ganha um arco que desenvolve sua relação com a família e seu papel no intrincado jogo arquitetado por Batman. Lucius Fox (Morgan Freeman) vê-se, a certa altura, ante um dilema moral que pode comprometer seu futuro ao lado de Bruce Wayne. Rachael Dawes (Maggie Gyllenhaal, no lugar que fora de Katie Holmes em Begins) coloca-se entre os dois homens que representam a esperança da cidade. Os mafiosos de Gotham ganham face, especialmente a de Salvatore Maroni (Eric Roberts), que tenta reorganizar o crime com a ausência de Carmine Falcone (que Tom Wilkinson interpretou em Begins). É em torno da prisão dos criminosos que gira parte de trama de O Cavaleiro das Trevas, que leva o Cruzado de Capa até Hong Kong em busca de um empresário peça-chave para colocar os bandidos atrás das grades - sua abdução é uma das seqüências mais empolgantes do novo filme, que também mostra maior apuro de Nolan no comando de cenas de ação. O Batman, desta vez, mostra como dar conta de dezenas de criminosos de uma vez só quase em um plano único, como em sua primeira cena, uma ponta-relâmpago do Espantalho (Cillian Murphy), que também revela a necessidade de um novo traje para o herói.

Este é, por sinal, um dos aspectos mais fascinantes deste mundo criado por Nolan para o Batman no cinema: tudo tem um motivo para existir, cada mudança é uma conseqüência orgânica da trama. Como o fantástico Batpod, que surge em uma das cenas que deve arrancar mais aplausos da platéia. Ou o mergulho nas trevas de Harvey Dent, que é absorvido por sua cruzada contra o crime e torna-se um dos personagens mais ambíguos e fascinantes do universo do Morcego, o Duas Caras. Sua desgraça nunca é gratuita, e é empurrada por ações caóticas de um homem que testa não só os limites de Dent ou do Batman, mas também da cidade inteira. Ambivalência moral e os limites da sanidade num candidato a blockbuster do verão ianque é só uma das evidências de que, com O Cavaleiro das Trevas, Nolan mirou em criar um filme que transcende gêneros.

E que traz um ator no auge de sua habilidade, o que dimensiona ainda mais sua tragédia. Os fãs de Jack Nicholson podem começar a chorar, já que Heath Ledger criou o Coringa perfeito em qualquer mídia. Ele não é um palhaço, não é um sujeito que chama a atenção com gritos e caretas e risadas. Nas mãos de Ledger, o Coringa é um masoquista que pouco se preocupa com seu passado (ele inventa pelo menos duas versões durante o filme), um louco que provavelmente despertou de sua letargia quando Gotham foi tomada pelo Batman - e ele enxergou, finalmente, alguém digno de sua atenção. Os planos do Coringa vão além de dinheiro, além do sadismo sem propósito, além da ultraviolência que marca suas aparições. Como ele se define, é um cachorro que corre atrás do carro, mas não faz idéia o que fazer se o alcançar. Em sua loucura, porém, ele levanta um espelho que mostra quem nós somos e quem podemos nos tornar - e para onde a balança pende quando desespero e medo da morte entram na mistura. Ledger fez dele o anarquisra perfeito, e sua imprevisibilidade dá o tom e carrega o filme. Ao contrário de outros (ótimos) blockbusters como Homem de Ferro ou Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, jornadas que trafegam em terreno familiar, o desfecho de Batman - O Cavaleiro das Trevas é uma incógnita a partir do primeiro segundo. Mas é um caminho que revela arquitetos da arte de fazer cinema travestido de entertainers. Estejam eles atrás das câmeras, sob o manto do Morcego ou em algum lugar inatingível, talvez observando seu legado e seu talento materializados num sorriso aberto com uma navalha.





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